perspectivas
o que perpectiva?, perguntou-me o colega, durante uma longa viagem de onibus, voce nao acha que seria uma discussao muito mais filosofica se fossemos tentar definir o que de fato uma perpectiva?
voltavamos de um simposio de fenomenologia e hermeneutica, ha alguns anos, quando ainda era estudante de filosofia e discutiamos as nossas perpectivas como futuros filosofos; alias, discutia eu, pois meu colega na epoca, dizia nao haverem perspectivas, nao haver nada a ser feito pelo mundo, nao haver futuro, nao haver historia; estava ele mergulhado em uma profunda falta daquilo que sempre me pareceu mais brilhante e nitido no meu futuro: perspectivas.
volta e meia, eu me lembro dessa conversa, nao tenho na memoria o que resultou dela, mas a pergunta persiste e com o passar do tempo, parece-me cada vez mais imperativo saber de fato o que sao essas nossas expectativas em relacao ao futuro, que por alguma razao se destacam das outras expectativas quando as denominamos assim: perspectivas.
lembro-me vagamente do que esperava na epoca - falando assim, pode parecer que jah faz muito tempo, mas o distanciamento de 5 ou 6 anos quando se eh adolescente como era na epoca, eh quase um abismo milenar, nessa nossa vida sempre com serias tendencias ao exagero - enfim, o que eu queria da vida entao e o que quero agora, nao sao muito diferentes. nesse meio tempo, porem, jah quis tantas outras coisas que hoje custa-me acreditar que devemos realmente traçar e botar tanta energia em tais coisas.
ha duas semanas, dentro da minha cabeca, os varios eus que a habitam tinham lindas perspectivas em relacao ha algo que nem de longe se concretizou; ha alguns meses, ocorreu a mesmissima coisa; no entanto, muitos acontecimentos notaveis, casos de exito inesperados surgiram na minha vida sem que qualquer plano fosse traçado sobre eles; o que me leva a crer que, ter como maxima a frase de heraclito - um cara que realmente sabia das coisas - espere sempre o inesperado, eh talvez a melhor saida; nao sou boa de planos, nunca fui, raros os que deram certo, mas ao longo da vida, jah fui muito surpeendida por acasos inopinados, por encontros e oportunidades que se davam extamente no momento em que achava necessitar de algo frontalmente oposto; ficar quando queria ir, deixar quando queria tirar, aceitar quando soh pensava em dizer nao, parar quando achava que o mais acertado seria continuar e continuar mesmo com muitas ganas de parar; reconhecer que a vida traz, por si soh, montes de escolhas que podemos fazer a qualquer momento nao eh das tarefas mais faceis, principalmente se estivermos presos as tais perspectivas, que nao deixo em absoluto de ter - seria irreal dizer que vivo sem imaginar o que quero que aconteca - podemos sempre, porem, receber de bom grado esses pequenos presentes inesperados que estavam totalmente fora de nossas perpectivas e parar para refletir que talvez baste um ajuste de foco, pois perspectivas sao, antes de mais nada, geometricamente falando, representacoes visuais de como objetos se apresentam conforme sua posicao e distancia; com um distanciamento mais apurado e um pocisionamento porventura diferente, o imprevisto pode entrar em perspectiva.

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