esclarecimento basico:
esse eh apenas um exercicio da minha veia literaria contista, depois voces me dizem se preferem a natascha cronista...
ALLAH-LÁ-Ô
Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô ô ô ô
Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente
Queimou a nossa cara
Viemos do Egito
E muitas vezes
Nós tivemos que rezar
Allah! allah! allah, meu bom allah!
Mande água pra ioiô
Mande água pra iaiá
Allah! meu bom allah
Bloco de carnaval
Daniel era o nome dele, mas poderia ser pedro, joao ou astolfo (apesar de eu nao conhecer nenhum astolfo), mas enfim, o nome era Daniel, como mamae escolheu.
Carioca da tijuca, tinha o carnaval na veia como seu pai, como a familia inteira. Seguia os blocos tradicionais e ia para os bailes, sempre de fantasia; na verdade preferia usar mascaras, nao que se achasse feio, mas mascaras davam um ar de misterio que, desde menino havia constatado, as garotas adoravam; as mascaras tambem eram um belo disfarce para essa timidez tao timida que tinha ateh medo de manifestar, nao era timido no sentido classico da timidez acabrunhada, era mais um medo latente das damas, se eh voces me entendem...
Crescido em meio a folia, Daniel - nao tinha apelido, nem para os intimos, dizia que dani era coisa de mulher- aprendeu cedo a gostar do calor carnavalesco, a gostar de tudo relativo a esse calor, que como bem diz a marchinha "lugar quente eh na cama, ou entao no Bola Preta".
Foi num carnaval mascarado que conheceu a seducao e a arte de um belo par de olhos, e belos pares tambem de outras partes; seu primeiro beijo teve gosto de confeti e foi com uma linda bailarina. Conheceu tambem junto com a efemeridade de um beijo roubado, a fugacidade de um lança perfume, esse nao pelas maos, bocas e braços das meninas, mas por seu tio, mestre da bateria do bloco onde seu pai puxava o samba. Esses sempre foram seus dois grandes companheiros, de carnaval e tambem do ano inteiro.
Com seu novo companheio, o lança, Daniel, q era garoto timido daquela timidez jah explicada, se soltava e assim liberto, durante o carnaval podia entender os sabores e os desejos das meninas que a seus olhos eram ciganas, princesas e baianas. Passada a onda do lança, porem, voltava a ser menino timido, q soh cantava e dançava 4 dias por ano.
Nos outros dias, Daniel se sentia vencido por essa timidez, por nao poder usar mascara o ano todo, por nao poder alongar indefinidamente a onda tao boa q o fazia tao lindo aos olhos das meninas...
Entre a mascara e o lança, decidiu que o mais facil, fora do carnaval, era mesmo o lança.
Seu pai, um dia, vendo q essa timidez havia de ser vencida com algo mais do que um paliativo inalante, chamou o menino, que jah nao era assim tao menino, para uma conversa, dessas que eu soh posso imaginar que rolem entre um pai e um filho.
Daniel, meu filho, voce tah ficando burro disso que devia somente ser um aditivo inocente de folia; nao deixe isso transformar voce em uma alface. A ilusao eh uma fera disfarcada de bela, que te leva pelos bracos ateh a sua medonha caverna. Escolha o mundo real, escolha lembrar das meninas que beija e escolha bem as que vai beijar. Livre-se dessa timidez de vez!
Mas, pai...
E o pai, como um bom pai, interrompeu o filho e continuou, dizendo algo que certamente despertarah a atencao de voces como despertou a de Daniel na ocasiao.
Eu vou te contar um segredo, meu filho...
Nesse instante, acontece a pausa que nao seberemos nunca quanto tempo dura...
Eu tenho um bloco de carnaval.
Tah loco, pai?! E isso eh segredo pra quem??? Todo mundo sabe q vc puxa samba no bloco!!! Depois sou eu que to ficando burro...
O pai levantou-se sem dizer nada e produziu de uma gaveta um bloco. Sentou-se novamente e com muito cuidado e poderia se dizer ateh um pouco de reverencia, abriu as paginas amareladas, que continham algo que Daniel nunca tinha visto em sua casa.
Eram fotos. Fotos de carnavais passados, todas as fotos tinham seu pai, sempre com uma camisa espalhafatosa, um colar havaiano ou um chapeu de malandro. Mas olhando melhor para as fotos, Daniel percebeu que aquela mulher fantasiada nao era uma, mas eram varias, lindas e nem tanto, abracadas com seu pai, ao longo dos muito carnavais. Cada foto estava datada e continha um nome. Ana, 1964, Marta 1967, Cris, 1969, Regina, 1971, Paulinha, 1977 e assim por diante. Muitas partilhavam os mesmo anos, afinal, o carnaval eh de todas. Viu sua mae entre as fotos e as viu escasseando depois dela, mas ainda assim continuavam, se espalhando pelas folhas meio mofadas do bloco de carnaval de seu pai. Percebendo a felicidade no rosto dessas mulheres fugazes, percebeu tambem a felicidade nos olhos de seu pai, nas fotos e ao mira-lo novamente, em sua face, ao vivo, alegrando-se enormemente por ter finalmente dividido a magia dos seus tantos carnavais com seu filho querido.
O pai entao, percebendo uma ligeira duvida que passava pelo rosto de Daniel, lhe disse, Essas mulheres, todas elas, foram felizes e amadas comigo, por mais breve que tenha sido o encontro, encontro ateh hoje um espaco no coracao para todas elas. Retenho dessa forma a alegria do carnaval, que volta a mim toda vez que olho para essas fotos. Essas mulheres, meu filho, sentem que por terem sido fotografadas assim, eu as amei e nao as deixarei cair no esquecimento. Esse esquecimento que nao quero que faça parte da sua vida, que nao pretendo que o deixe levar para onde, nao elas, mas voce mesmo serah esquecido. Se voce ama a vida e as belas damas que soh esssa vida amada pode lhe proporcionar, encare-as de frente, sem mascaras de qualquer tipo.
Daniel entendeu entao o que seu pai queria dizer e sentiu-se livre do peso da timidez para com as moças, sentiu-se homem, sentiu-se capaz e euforico como nunca nunhuma droga o havia deixado.
O pai, disse entao, Leva a minha polaroid - sim, eram polaroids, porque nem a memoria linda do pai de Daniel seria capaz de esperar rolos de filmes acabrem para revelar o rosto de todas as suas belas companheiras- para esse carnaval que estah comecando, e vai, sem medo, sem mascara, conquista as suas belas e faz delas rainhas do seu bloco. Essa tradicao eu passo a voce com a condicao com que me foi passada: esse bloco eh seu e soh seu, a ilusao e fantasia acabarao no momento em que voce dividir isso com alguma mulher beijada e conquistada. Isso foi seu tio quem me ensinou, meu irmao mais velho e o mais sabio boemio que conheco, e olha que eu conheco muitos. Ele vai ficar muito feliz de te ver com a camera na mao quando o bloco passar.
Daniel viveu assim seu melhor carnaval, tirou muitas fotos com todas as suas princesas, perguntou nomes e se orgulhou de lembrar de quase tudo que ocorreu naquele ano. Quase, porque, logo no comeco da historia do seu bloco particular, justamente sua mais bela princesa, deixou-a ir, perdendo-se no mar de gente, depois de um delicioso e refrescante beijo, dessa vez nao roubado mas aceito de bom grado, partiu ela sem deixar traço, nome, telefone, hotmail nem nada. Deixou somente seu sorriso iluminando a foto, seus olhos amendoados, seus cabelos cacheados, que com uma icognita, ficaram no comeco do bloco, carnaval 2002 (?).
Desde entao, seu bloco seguia ficando extenso, mas sempre havia a sensacao de que faltava realmente a rainha das belas, a mais bonita das cabrochas dessa ala (isso quem disse foi o Daniel, nao pensem que eu plageio Chico Buarque assim impunemente).
A procura se estendeu a varios carnavais, nos quais Daniel, outro, depois daquela conversa, nao mais o timido, sempre buscava entre os rostos na multidao, a sua princesa. Ateh que um dia, numa manha nublada e quente, no Cordao do Bola Preta, viu fantasiada de colombina, a sua bela e para seu espanto, estava com a irma da amiga de uma amiga, ou talvez a prima da amiga da irma, enfim, gente conhecida, como pode ela fugir tanto tempo de seu pierrot?!
Com o batuque da banda acelerando seu coracao, Daniel foi ateh ela, olhou-a nos olhos, emocionou-se e vendo-se tambem reconhecido, abracou-a e disse baixinho no seu ouvido: carnaval 2002, no que ela respondeu: Alice... desvencilhando-se do abraco apertado daquele moço bonito, ela disse: agora voce pode completar seu bloco...
Virou-se, deixando nosso amigo em choque, e perdeu-se na multidao, como soh uma colombina sabe fazer.
MÁSCARA NEGRA
Quanto riso oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da colombina
No meio da multidão